A traição é sempre um terramoto.
O mundo, que parecia fiável, desmorona-se num segundo, e não se sabe como recolher os fragmentos e se é possível construir algo novo depois disso, relata o correspondente de .
Os psicólogos que trabalham com o tema da batota e do engano argumentam: a confiança pode ser restaurada, mas é um longo caminho, que terá de passar por várias fases. E a primeira delas – a mais difícil – é reconhecer que a antiga confiança já não existe.
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Muitas pessoas cometem o erro de tentar fingir que nada aconteceu. Perdoar e esquecer, seguir em frente como antes. Mas não é assim que funciona, porque a confiança ferida não se cura com o silêncio.
Um investigador de traumas de infância explica: a reação à traição depende em grande medida do facto de a pessoa ter tido uma experiência semelhante na infância. Se os pais enganaram, traíram, desvalorizaram, a ferida será mais profunda.
Em princípio, uma pessoa assim dificilmente acredita nas pessoas e, após uma nova traição, o seu defensor interior liga o modo de bloqueio total. “Nunca mais confiarei em ninguém” é o grito da alma, que soa do fundo do coração.
Mas é impossível viver com este lema. Porque sem confiança não há intimidade, e sem intimidade a relação transforma-se numa coexistência formal de dois estranhos debaixo do mesmo teto.
O primeiro passo para a recuperação é dar-se tempo para fazer o luto. A traição é uma perda, e precisa de ser lamentada. Perda de ilusões, perda de segurança, perda da imagem do parceiro que estava na sua cabeça.
Os psicólogos avisam: não se pode saltar para uma nova relação imediatamente após uma separação, esperando que isso cure tudo. O novo parceiro não tem de ser um terapeuta para o trauma antigo. Isso só vai piorar a situação.
O segundo passo é lidar com o seu próprio papel no que aconteceu. Não para assumir a culpa. Mas para compreender os seus pontos cegos, aqueles sítios onde não reparou no óbvio porque não quis reparar.
A prática mostra: a maioria das pessoas sente intuitivamente que algo está errado muito antes de saber a verdade. Mas preferem fechar os olhos porque a verdade é demasiado assustadora. Este é um mecanismo de defesa que acaba por ser mais prejudicial.
O terceiro passo é aprender a confiar em si próprio. Parece um cliché, mas é aqui que reside o principal segredo. Uma pessoa que confia na sua intuição, nos seus sentimentos, na sua capacidade de lidar com a situação, tem muito menos medo de ser enganada.
Ele sabe: se for traído, sobreviverá. Tem um ponto de apoio interior. E este conhecimento, paradoxalmente, torna-o mais aberto a novas relações, porque o medo da dependência desapareceu.
O quarto passo é experimentar um pouco a confiança. Não saltar de cabeça, mas testar as águas gradualmente. Diga a uma pessoa algo não muito importante e veja como ela lida com isso.
Pedir uma pequena ajuda e ver se há reação. A confiança não se reconstrói com grandes gestos, mas com milhares de pequenos passos em que a realidade corresponde às expectativas.
E sim, o risco mantém-se sempre. O homem é uma criatura livre e ninguém pode dar garantias. Mas viver de armadura também não é uma opção, porque a armadura protege não só da dor, mas também da felicidade.
A psicóloga sublinha: o amor verdadeiro é uma escolha que fazemos todos os dias, apesar do risco de nos queimarmos de novo. É a coragem, como dizem os franceses, a coragem do coração.
Aquele que sobreviveu à traição uma vez e encontrou a força para se abrir de novo conhece o valor da intimidade melhor do que ninguém. Ele não perde tempo com disparates, não joga jogos, não se esquece. Ele apenas aprecia cada minuto do presente.
Porque ele sabe que a confiança não é a ausência de risco. É uma vontade de arriscar por uma oportunidade de estar verdadeiramente presente. E vale a pena.
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