Ficamos surpreendidos ao ler notícias sobre mulheres que suportaram anos de violência doméstica.
Ou de homens que foram humilhados e desvalorizados enquanto continuam a levar flores aos seus algozes, relata um correspondente do .
Um psicólogo com muitos anos de experiência explica-o de forma simples: as pessoas não toleram, preferem a dor familiar à desconhecida. O medo de partir é muitas vezes mais forte do que o medo de ficar, porque partir é saltar para o vazio.
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O segundo ponto são os chamados benefícios secundários, de que falam os especialistas no trabalho com a co-dependência. A vítima recebe atenção, piedade, apoio dos outros e um sentimento de valor próprio através do sofrimento.
Isto soa cínico? Talvez. Mas é por isso que as pessoas andam em círculos durante anos, queixam-se às namoradas e aos amigos, mas não mudam nada. Têm medo de perder esse papel familiar.
O terceiro fator são os traumas de infância, que formam o cenário da vida. Uma criança que cresceu numa família onde o amor tinha de ser conquistado através de um bom comportamento, escolherá, em adulto, parceiros cujo amor também tem de ser conquistado.
Ele simplesmente não sabe que existe outra forma. Que é possível ser valorizado a troco de nada, sem condições, sem humilhações e sem ter de suportar. Este conhecimento não está incorporado na sua imagem do mundo.
Por isso, o conselho “vai-te embora” soa a uma zombaria para essas pessoas. Para elas, partir significa permanecer num vazio onde não há pontos de referência, nenhum cenário familiar, nem mesmo a dor a que estão habituadas.
O psicólogo sublinha nas suas obras: na fase do enamoramento, o cérebro desliga o pensamento crítico e não nos apercebemos dos sinais de alerta. É então que entra em ação o mecanismo do “já investi tanto, é uma pena desistir”.
Os economistas chamam a isto o “erro dos custos irrecuperáveis”. Os psicólogos chamam-lhe a “armadilha do investimento”. Quanto mais tempo, esforço e emoção dedicamos a uma relação, mais difícil é reconhecer que foi tudo em vão.
Mas a verdade é que não foi em vão. Foi uma experiência. Uma experiência que lhe mostrou exatamente como não o fazer. Uma experiência que destacou as tuas vulnerabilidades que precisam de ser curadas, não inundadas com novas relações.
Estudos sobre temas populares em fóruns de psicologia confirmam: o tema da co-dependência e das relações abusivas está entre os mais discutidos. As pessoas estão à procura de uma resposta, querem perceber como sair deste círculo vicioso.
E há uma resposta. Parece simples, mas é difícil de cumprir: é preciso começar a construir uma relação consigo próprio. Deixe de procurar um salvador no exterior e torne-se um apoio para si próprio.
Enquanto o sentimento de inutilidade viver dentro de si, qualquer parceiro senti-lo-á e, conscientemente ou não, usá-lo-á. Porque não respeitar uma pessoa que não se respeita a si própria é uma reação natural, mesmo para as melhores pessoas.
Os limites não têm a ver com agressividade. Trata-se de saber com calma: podes fazer-me isto e não podes fazer-me aquilo. E se não puder, vou-me embora, sem escândalos, sem ameaças, sem tentar mudar o meu parceiro.
Este conhecimento só vem de dentro. Não o podemos obter em livros e formações, só o podemos fazer emergir em nós próprios através de um diálogo honesto com os nossos próprios medos.
Por isso, em vez de perguntar “porque é que ele me está a fazer isto”, pergunte “porque é que eu estou a permitir que ele me faça isto”. A resposta à segunda pergunta abrirá uma porta que há muito deveria ter sido aberta.
O preço do amor ilusório é sempre mais alto do que parece. Não se mede em nódoas negras ou nervos em franja. Mede-se em anos de uma vida que poderia ter sido muito diferente.
Feliz. Real. Sem medo nos meus olhos.
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