Durante muito tempo, o apêndice foi considerado um vestígio – um resquício inútil dos órgãos digestivos herdados dos antepassados humanos. No entanto, a investigação moderna mostra que a sua história evolutiva é muito mais complexa e que o próprio órgão pode desempenhar um papel importante no sistema imunitário e na manutenção do microbioma intestinal. The Conversation relata que.
O apêndice é um pequeno esporão que se ramifica da secção inicial do intestino grosso. A sua forma e tamanho variam consideravelmente consoante as espécies animais. Em alguns primatas, incluindo os humanos e os grandes símios, tem uma forma cilíndrica longa. Noutros mamíferos, como os coalas e os vombates, é mais curto e em forma de funil. Em alguns roedores e coelhos, a estrutura deste órgão é ainda mais diferente.
Dados modernos mostram que o apêndice está envolvido no sistema imunitário. As suas paredes contêm tecido linfoide – aglomerados de células imunitárias que ajudam o corpo a controlar a composição dos micróbios no intestino.
Este sistema é especialmente ativo durante a infância e a adolescência, quando o sistema imunitário está em formação. As estruturas linfóides do apêndice estão envolvidas na produção de anticorpos, como a imunoglobulina A, que ajuda a neutralizar os agentes patogénicos.
Além disso, os cientistas especulam que o apêndice pode servir como uma espécie de “refúgio” para bactérias intestinais benéficas. De acordo com uma hipótese, formam-se biofilmes – comunidades estáveis de microrganismos – no seu interior.
Durante infecções intestinais graves, quando grande parte do microbioma é eliminado do intestino, as bactérias preservadas no apêndice podem ajudar a restaurar a microflora normal. Estes microrganismos participam na digestão, suprimem os agentes patogénicos e interagem com o sistema imunitário.
Nas populações humanas antigas, onde o saneamento era deficiente e as infecções intestinais eram comuns, a capacidade de reconstruir rapidamente o microbioma pode ter proporcionado uma grande vantagem de sobrevivência. No entanto, esta situação alterou-se no último século. A água potável, a melhoria do saneamento e os antibióticos reduziram drasticamente a mortalidade por infecções intestinais. Nestas condições, as vantagens evolutivas do apêndice praticamente desapareceram, enquanto o risco de apendicite se manteve.
Por isso, a medicina moderna geralmente trata a inflamação do apêndice com remoção cirúrgica. Um órgão que pode ter tido benefícios evolutivos é agora mais frequentemente visto como uma fonte potencial de problemas médicos.
Este exemplo ilustra bem um dos princípios da medicina evolutiva: muitas caraterísticas do corpo humano foram formadas para condições do passado e nem sempre são óptimas para a vida no mundo moderno.
